Oi, Renata

Os homens sempre vão para a cama sonhando com Gilda (do filme) e se decepcionam ao acordar ao lado de Rita”. – Rita Hayworth.

É difícil ser você. É fácil ser você. Depende do dia, do jeito que acordou, do pensamento que brotou na sua mente logo nos primeiros instantes em que abriu os olhos.

Nos dias bons, sou apaixonada por você. Adoro o seu sorriso. Sei que a batalha para tê-lo do jeitinho que você o quer tem sido longa. Aparelhos, clareamento, dinheiro.

Adoro a sua voz, as suas ideias, as suas histórias, as suas cantorias.

Gosto do seu bom-humor. Você é cativante. Carismática. É bom ter você por perto, na roda. É bom ser você.

No dias ruins, eu sei, é difícil ser você. Seus pensamentos te sabotam a todo momento e te levam a um lugar escuro, sem paz, sem amor e sem música. É difícil para nós domá-los. Às vezes temos que apelar para um comprimidinho só para a tortura ter um fim. Só que ela nunca tem fim.

É delicioso ser você. É delicioso ter seu estilo, seu corpo, seus cuidados, suas opiniões, suas escolhas. Aprovo todas elas.

É tenso ser você. Você avacalha, você faz coisas erradas, você não tem juízo! Tudo bem, eu te perdoo, mas será você que não vai aprender nunca, Renata? Quantas vezes eu já te disse que carboidrato à noite não é legal, que ficar stalkeando perfis de instagram não te faz bem, que não se deve ler bula de remédio nem procurar no google efeitos colaterais.

Diga-me, por que você foi gastar R$ 200 e alguns num pijama? Agora, eu tenho que vestir camiseta velha pra dormir porque a senhorita fica com dó de usar a iguaria.

Que orgulho tenho de você! Foram tantos desmaios, tantos choros, tantas lamentações, tantas dores, tantas rezas e você continua de pé. Parabéns pela sua trajetória, garota!

Continue assim, um dia de cada vez e você chega lá!

Agora, chega! Chega de continuar assim, né, Renata?

Levante-se dessa cadeira e vá correr atrás dos seus sonhos, garota!

Estamos entendidas?

Assinado, Renata.

Take Me as I Am, Whoever I Am

In love there’s no hiding: You have to let someone know who you are.

I would have cried from the sheer monotony of it, but tears were too much effort.

I had met the enemy enough times to know it by sight.

“Who are you?” the questionnaire asks at the start.

I want to be honest, but I don’t know how to answer. Who am I now? Or who was I then?

(continue vivendo com dor, alegria, amor, memórias)

Metade – Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
.

Nem todas as nossas neuras Freud explica.

Fique no seu quentinho

Escrevi esse texto pensando na Flavinha Fernandes, em mim, no Raul e em todas as pessoas que são adeptas de uma vida mais quentinha, protetora e acolhedora.

A vida pede tantas vezes para irmos lá fora.

A vida pede tantas vezes para sairmos do nosso conforto.

Mas, hoje, você pode se manter no seu quentinho.

Sim, amiga, fique no seu quentinho.

Sinta o quentinho da água que escorre ralo abaixo durante o banho.

Envolva-se no quentinho do edredom.

Vista-se do quentinho do moletom, do pijama e das meias.

Enrole-se no quentinho da manta no sofá.

Saboreie o quentinho do sopão Maggi.

Beba o quentinho do chá das cinco, do café da tarde com bolo mata-fome da vó.

Hospede-se no quentinho aconchegante do seu lar.

Embale-se no quentinho do sono dos justos.

Sintonize-se no quentinho do filme água com açúcar da sessão da tarde.

Deite-se no quentinho do colo de Deus.

Receba essa mensagem dentro de um abraço bem quentinho. O meu.

(Foto: Rawpixel/ Unsplash)

Lenine – “É O Que Me Interessa” 

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
E o vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto
E é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou

Me traz o teu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

Minha mente salada de cores

(Foto: Alex Paganelli – Unsplash)

Eu já falei sobre as minhas tristezas, despedidas, amigas, profissões e crises de ansiedade. Agora, vou falar de algo que acontece na minha mente desde sempre.

Quando penso em segunda-feira, penso na cor azul bebê. Para mim, terça é amarela, tom de ovo; quarta é vermelha; quinta é verde escura; sexta é branca e embaçada, como uma nuvem; sábado tem “cara” de cor pastel; e domingo, azul índigo.

Números, nomes, cidades, datas e estações do ano também têm cores para mim. Eu enxergo Renata, por exemplo, amarelo dourado; Paula, vermelho quente; e Bete, salmão. Se ouço um repórter falar de Brasília, me vem o verde bandeira à mente. Verão é sempre laranja. Duas relações bastante óbvias, né.

Será que só eu enxergo os dias, os números, os nomes, o MUNDO, dessa forma?

Será que eu possuo um tipo de sinestesia – um distúrbio neurológico que faz com que o estímulo de um sentido cause reações em outro, gerando uma mistureba de sensações?

Segundo Sean Day, professor na Universidade de Ohio (Estados Unidos) e presidente da Iasas (Sigla inglesa para Associação Internacional de Sinestetas, Artistas e Cientistas), há várias pessoas no mundo com as formas mais diversificadas de sinestesia. Enquanto para mim as letras e palavras transbordam cores, para alguns são os sons e gostos que tomam frente aos sentidos.

Mas o que acontece no cérebro de um sinestata?

Para a maioria das pessoas, os estímulos externos recebidos no cérebro são processados paralelamente e em uma rota específica. Ou seja, nenhum cruza com o outro, e eles são interpretados separadamente.

Porém, no cérebro de um sinesteta, as trilhas se cruzam, criando uma verdadeira salada sensorial entre visão, audição, paladar, tato e olfato. Isso faz com que uma pessoa possa sentir gosto em sons ou enxergar cores em palavras, entre tantas outras misturas possíveis para cada indivíduo sinesteta.

Por favor, não me julguem como louca ou sem noção!

Pesquisadores e neurologistas ao redor do mundo garantem que as reações sinestésicas não são loucura nem uma alteração no estado de consciência.

A sinestesia é simplesmente uma outra forma de ver e sentir a realidade.

Por aqui, o cantor Lulu Santos enaltece a cor azul: “Tudo azul, todo mundo nu. No Brasil sol de norte a sul. Tudo bem, tudo zen, meu bem”. Já nos states, se alguém diz que está blue ou feeling blue, significa que a pessoa está triste, melancólica.

Esse significado provavelmente evoluiu do gênero musical blues e das diversas expressões tristes atreladas a ele: sing the blues, por exemplo, pode tanto ser “cantar blues” quanto “reclamar”.

Lembro-me, então, da música do Elvis Presley Blue Christmas (“I’ll have a Blue Christmas without you / I’ll be so blue just thinking about you”). Mais sad e deprê do que isso, impossible.

By the way, sempre associo as cores preta e branca aos Elvis. Mas há uma explicação: eu o vejo na minha mente vestindo o icônico macacão branco com topete e costeletas negras.

Elvis Presley, o Rei do Rock
Imagem do Elvis em… Preto e branco!

Também guardo gostos e cheiros na memória

Outro dia, ao comer uma bolacha específica da Nestlé, fui levada para a creche que ia quando criança. O gosto me fez voltar para os anos em que derramávamos um monte de groselha nas mesas, para o desespero das tias que cuidavam de nós.

Já o cloro que usei para limpar o piso do banheiro me transportou para a rampa que eu e minhas irmãs descíamos e subíamos para chegar até a piscina de Suarão.

E, na última vez que passei pela marginal Tietê e senti o cheiro de esgoto, lembrei-me do único passeio de Maria Fumaça que fiz pelo Playcenter.

Para mim, bastam apenas poucos segundos para que os aromas me façam reviver experiências – sejam elas boas ou ruins.

Fontes: Sean Day, doutor em linguística pela Universidade de Purdue e presidente da Iasas (sigla inglesa para Associação Internacional de Sinestetas, Artistas e Cientistas); Julia Simner, especialista em linguística e psicologia pelas Universidades de Toronto e Seussex; Patricia Duffy, mestre em artes pela Columbia University, autora do livro “Blue Cats e Chartreuse Kittens: How Synesthetes Color Their Worlds”, cofundadora e consultora da Associação Americana de Sinestesia.

Minha tristeza crepuscular

(antes de começar a ler esse texto, você deve clicar aqui)

Tem um tipo de tristeza com a qual eu me identifico que só aparece ao cair da noite. Quando o sol vai se pondo. Quando as luzes do dia vão embora. Quando a noite vem se aproximando. É ali que ela mora.

Se for domingo, então, a angústia, o vazio, o medo e as inseguranças inflamam ainda mais dentro de mim. Meu instante de grande solidão.

A angústia do domingo à noite é a nossa consciência tentando, de maneira inarticulada, nos despertar para fazermos mais de nós mesmos.

Essa tristeza afeta, principalmente, os que são reféns do amanhã e do ontem, como eu. Sinto uma nostalgia imensa e fico derramada num lugar de saudade que nem consigo explicar.

O teólogo, pedagogo e escritor Rubem Alves, o qual faleceu em março deste ano, fala sobre ela, a tristeza do entardecer (renomeei por livre e espontânea vontade para “tristeza crepuscular”), definindo-a como a simples constatação de que tudo aquilo que a gente ama na vida necessariamente se vai com o fluxo do tempo.

Um dia, segundo ele, estava andando pelo seu apartamento quando contemplou uma foto dos seus filhos pequenos. Naquele exato momento, sentiu uma tristeza. Nada tinha acontecido com os filhos, eles estavam bem e crescidos. Tudo estava certo. Não havia uma notícia ruim, um evento trágico.

Ele simplesmente sentiu tristeza porque lembrou-se de um momento belíssimo da sua vida, da sua família e da infância dos seus filhos.

Como escrevi, não é uma tristeza fruto de um evento trágico. Ela advém no momento em que temos noção da passagem do tempo, do ciclo da vida seguindo o seu curso, das coisas que se vão.

E por que eu a chamo de crepuscular?

Quando chega o crepúsculo, começa a haver transformações rápidas no céu. Rapidamente, as cores vão se alterando, o azul fica verde, o verde fica amarelo, o amarelo fica abóbora, tudo fica roxo e logo o céu está mergulhado na escuridão. A percepção é que a hora de partir está chegando.

O crepúsculo é essa consciência de que o tempo passa rapidamente, a vida passa rapidamente.

De alguma forma o tempo leva tudo embora.

Por outro lado, o tempo nos traz paciência (para lidar com aquilo que não temos controle) e contemplação da vida, como menciona o trecho abaixo do livro bíblico Eclesiastes:

Para tudo há um tempo determinado;
Há um tempo para toda atividade debaixo dos céus:
Tempo para nascer e tempo para morrer;
Tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou;
Tempo para matar e tempo para curar;
Tempo para derrubar e tempo para construir;
Tempo para chorar e tempo para rir;
Tempo para lamentar e tempo para dançar;
Tempo para jogar fora pedras e tempo para ajuntar pedras;
Tempo para abraçar e tempo para evitar os abraços;
Tempo para procurar e tempo para dar por perdido;
Tempo para guardar e tempo para jogar fora;
Tempo para rasgar e tempo para costurar;
Tempo para ficar calado e tempo para falar;
Tempo para amar e tempo para odiar;
Tempo para guerra e tempo para paz.

Para tudo tem seu tempo, e o tempo não é o nosso, e, sim, do Pai.

As coisas acontecem no tempo certo, tudo tem o seu tempo e há coisas que levam tempo.

Deixa a vida fluir e vá desfrutando do presente.

Vivendo numa bolha branca

Acabo de ler:

“Ei, branco, você é mesmo antirracista?”. 

Continuo lendo:

“Não basta gostar do Mano Brown, achar a Naomi Campbell e a Michelle Obama ‘incríveis’, repetir frases da Angela Davis e outros tantos pensadores e pensadoras negras porque é cool se você fica em silêncio diante de uma demonstração de racismo”.

GLUMP!!!

Dizer que não existe racismo no Brasil é querer tapar o sol com a peneira.

Peggy McIntosh, acadêmia feminista e antirracista define a branquitude como um “pacote invisível e indébito de ativos que podem ser descontados diariamente”, mas cuja existência não se reconhece.

“Como uma pessoa branca, eu tinha aprendido que o racismo é algo que coloca os outros em desvantagem, mas não fui ensinada a enxergar um de seus corolários no privilégio branco, que me coloca em vantagem”, explica.

Ter a consciência de que brancos usufruem de privilégios simbólicos e materiais em relação aos negros é passo fundamental para que se possa combater o racismo no Brasil.

Sim, é fundamental que nós, brancos, atentemos para nossas percepções, concepções e práticas e, em autocrítica, tenhamos a lucidez necessária sobre essa questão tão presente.

Mas, afinal, o que é privilégio?

Gostei muito da explicação de um amigo que trabalha com TI (Tecnologia da Informação). Ele disse que em sua área profissional, privilégio é o nome dado à permissão que apenas alguns usuários têm, num sistema de computador, para executar determinadas ações ou acessar determinadas áreas.

Se todos têm acesso ou controle sobre algo, então não há privilégio. Privilégio existe somente em relação a outros não terem as mesmas possibilidades ou vantagens.

De acordo com as condições nas quais a pessoa nasceu, ela terá mais ou menos acesso a certas coisas como até mesmo ter ou não suas necessidades básicas na infância atendidas e acesso à escola, por exemplo.

Se as mortes negras parecem distantes do mundo onde você vive, saiba que as instituições que negam justiça a estas mortes moram ao seu lado. São as corregedorias de polícia, os governos estaduais, as promotorias. O que nos falta não são notas de pesar; falta usar o privilégio que nos faz viver longe destas mortes para que elas, ao menos, recebam a justiça que merecem – Thiago Amparo, professor.

Djamila Ribeiro lança Pequeno Manual Antirracista - Marlos Bakker
Sim, somos racistas.
A filósofa feminista negra Djamila Ribeiro: “Historicamente, nascer negra no Brasil é nascer marcada”.

Em Pequeno Manual Antirracista, a filósofa feminista negra Djamila Ribeiro busca levar ao grande público, com uma linguagem didática, uma discussão que costuma ficar restrita a círculos acadêmicos e de militância.

“Hoje tem pessoas que até reconhecem o racismo, sabem que o Brasil é racista, mas não pensam quanto que é importante tomar atitudes em relação a isso”, explica.

A prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas.

COMO?

  • informar-se sobre racismo
  • ler mais autores negros
  • reconhecer os privilégios de ter nascido branco
  • apoiar ações que promovam a igualdade racial nos diferentes âmbitos da sociedade.

Segundo Djamila, as ações acima podem ajudar a reverter o quadro atual.

“No Brasil, há a ideia de que a escravidão aqui foi mais branda do que em outros lugares, o que nos impede de entender como o sistema escravocrata ainda impacta a forma como a sociedade se organiza”, diz em um dos capítulos do livro.

A questão é: “O que você está fazendo ativamente para combater o racismo?”.

“Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar”, acrescenta.

Agora, me diga, quais autores negros você já leu?

Como cada indivíduo deve agir para combater o racismo?

“Se você é dona de uma empresa ou de uma loja, invista na diversidade, contratando funcionários negros. Ofereça treinamento a seus empregados para combater os estereótipos. Isso é um problema muito grande: assumir que uma pessoa é de um determinado jeito só pela cor da pele, sem ao menos conversar com ela. Nós, como consumidores, temos que parar de comprar produtos de marcas que não apoiam a comunidade negra. As marcas precisam assumir seu papel. Não adianta grandes empresas doarem dinheiro para campanhas de diversidade, se dentro dessas mesmas empresas só a tia do cafezinho e o cara da limpeza forem negros. É importante ter diversidade no andar de cima também. É preciso dar oportunidades para que os negros ocupem esses espaços. Se você tem amigos negros e sabe que eles são capacitados, use o seu lugar de fala e indique essas pessoas para essas vagas. Questione a falta de diversidade no seu ambiente de trabalho” – Ingrid Silva, bailarina engajada em promover a diversidade no mundo do balé e o empoderamento das mulheres.

Termino esse texto lendo a frase do ex-jogador norte-americano de basquete profissional Michael Jordan:

“Algumas pessoas querem que algo aconteça; outras desejam que aconteça alguma coisa e existem as pessoas que fazem acontecer”.

Milton Nascimento – Maria, Maria (verdadeiro hino das mulheres negras)

Maria, Maria

É um dom, uma certa magia

Uma força que nos alerta

Uma mulher que merece

Viver e amar

Como outra qualquer

Do planeta

Maria, Maria

É o som, é a cor, é o suor

É a dose mais forte e lenta

De uma gente que ri

Quando deve chorar

E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre

Quem traz no corpo a marca

Maria, Maria

Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha

É preciso ter graça

É preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida

Você é Deus?

(escrevi esse texto no começo deste ano)

Pergunto isso porque o senhor brota, do nada, nos lugares em que estou.

Pergunto isso porque te ver me acarreta uma sensação boa, de paz.

Pergunto isso porque eu admiro-o, mesmo sem te conhecer.

Você está sempre sozinho, mas bastante atuante.

Ora o senhor está lendo jornal na biblioteca do Complexo Argos, ora perambulando com mochila nas costas pelas ruas do centro.

Já o vi comendo maçã na calçada perto de casa; de calça e camisa jeans no shopping da Nove. Já o vi, inclusive, na Oficina de Costura e na aula de Recorte e Colagens, ambas no Sesc.

Parece que o senhor tem uma vida produtiva, rica em conhecimento. O senhor deve ser um pessoa culta, do bem, moderna, apesar dos fios brancos em sua cabeça.

Não o vejo como um senhor solitário, pois está sempre bem acompanhado: seja pelos livros, jornal, maçã, mochila ou tesoura.

Hoje o senhor esta sentado à minha frente: de camisa polo azul, chuteira vermelha Adidas e calça de capoeira; cabelo bem penteado; mochila ao lado na cadeira; celular carregando na tomada.

Tenho a sensação de que o senhor está rejuvenescendo a cada dia que passa. Gostaria de saber por que razão tanto vê o celular. Será que faz parte de um grupo? Turma da Leitura, Amigos do Sesc, Grupo da Argos, Colegas da Melhor Idade, Galera da Ginástica. Será que o senhor lê artigos de educação, culturais, notícias sobre política, economia?

NOTA: O que o senhor tem feito nesta quarentena? Tem lido jornais, como? Tem conversado com os colegas pelo whats? Aliás, o senhor tem Instagram?

(Foto: Umplash)

10 fragmentos de Nova York

Resolvi escrever sobre um dos #tbts que mais mexe comigo: a minha viagem para Nova York. Eu me vejo engolida por uma onda de sentimentos cada vez que o Facebook relembra as fotos e publicações postadas em abril de 2013, data em que visitei Manhattan. Tenho a sensação de que essa trip aconteceu em outra época, vivida por uma outra Renata.

(E não foi?)

Por muito tempo fiquei sem olhar as fotografias de lá. Se não fossem o Facebook e as lembranças que veem à tona por parte da minha querida prima, quem me acompanhou e me aturou nessa aventura, essa viagem estaria guardada num cantinho secreto escondido bem lá no fundo de minha memória.

(E não está?)

Hoje tomei coragem e revi algumas fotos. Ao fazer isso, resgatei do meu HD particular 10 fragmentos curiosos, os quais quero dividir com vocês:

1- Na época, eu estava fascinada pela cantora Alicia Keys e por “Empire State of Mind”, canção que gravou com Jay Z em homenagem à cidade de Nova York. Eu imprimi a letra e levei-a comigo, mas tive que deixar as folhas na gaveta do quarto do hotel ao vir embora, pois minha mala estava abarrotada de panfletos, mapas e guias. Trouxe tudo quanto era papel de cada lugar por onde eu passei. Depois de alguns anos, foram todos para o reciclável. A música continua sendo uma das minhas preferidas.

Pianista de formação clássica, a cantora Alicia Keys 

2- Eu queria muito conhecer a catedral de St. Patrick, a histórica igreja da Quinta Avenida. Mas bem naquele ano o local estava em reforma e o que eu vi foi um monte de andaime. Mesmo assim, entrei e agradeci. Agradeci muito a Deus por estar realizando um grande sonho, após vários perrengues vividos no ano anterior.

Nenhuma descrição de foto disponível.
A histórica e charmosa St. Patrick’s Cathedral 

3- A primeira compra que fiz em NY foi a de um Iphone 5 branco, no cubo de vidro da Apple Store. Demoramos umas duas horas na loja SÓ para conseguir cadastrar a senha, mas valeu a pena cada segundo. Vale lembrar que o dólar custava R$ 2. Por um bom tempo, fui feliz com ele. Depois, só dor de cabeça! Perdi as contas de quantos carregadores precisei comprar para essa belezinha.

A imagem pode conter: 3 pessoas
Juro que não me reconheço nessa foto!

4- Claro que eu visitei a FAO Schwarz, a icônica loja de brinquedos do filme “Quero Ser Grande”, e claro que eu pulei no famoso piano gigante usado por Tom Hanks no filme. A coordenação não foi a mesma, mas eu tentei.

Nenhuma descrição de foto disponível.
A loja de brinquedos do filme “Quero Ser Grande”

5- Assistir ao musical Mamma Mia! na Broadway era uma das certezas que eu tinha. Sou fã desde o dia em que meu pai comprou o CD ABBA Gold: Greatest Hits, uma coletânea de músicas do grupo. Só que eu não consigo lembrar nadinha do espetáculo daquela noite, apenas que fui e me realizei. Devo ter ficado tão fascinada, que uma parte de mim permanece sentada na poltrona do teatro até hoje. Também me recordo do casacão off white, o qual emprestei de uma amiga com a intenção de usá-lo no dia reservado para Mamma Mia! Dito e feito.

A imagem pode conter: 1 pessoa
Mamma miahere I go again / My my, how can I resist you 

6- A primeira vez que comprei uma calça Diesel foi em NY. Aliás, a primeira vez que tive acesso a marcas como Diesel, Calvin Klein, Tommy Hilfiger, Kipling, Smashbox e tantas outras foi lá. Ao longo dos anos, as roupas made in big apple foram perdendo a graça, o uso e o brilho de tê-las no meu armário. A bolsa da foto, por exemplo, deixou de ser objeto de desejo no dia em que a minha cunhada falou: “Você sabia que essa bolsa é de maternidade, né?”.

A imagem pode conter: 1 pessoa
Reconhecem essa paisagem?

7- Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, eu estava indo para a faculdade. Cursava o primeiro semestre de jornalismo. Quase todos os meus trabalhos tiveram como tema os ataques às Torres Gêmeas. Visitar o 9/11 Memorial & Museum foi bastante tenso. Eu não conseguia tirar fotos (achava desrespeitoso), mas queria documentar tudo que estava vendo: os objetos resgatados, os depoimentos dos sobreviventes, os painéis com os nomes das vítimas. Olhar para aquele local me fez lembrar das centenas de matérias que li e assisti. Foi o dia mais estranho da viagem, porque não era um passeio turístico. Lembro-me de termos saído de lá mudas.

Nenhuma descrição de foto disponível.
As “piscinas” com cascatas simbolizam as lágrimas pelos que se foram

8- O melhor domingo da minha vida foi no Central Park! Passei uma manhã inteira caminhando e tirando fotos do cenário que tanto tinha visto (e continuo vendo) nos filmes e nas séries. Sem destino, sem mapa. Apenas andei, sentei na grama e nas pedras, vi e vivi.

Nenhuma descrição de foto disponível.
Tranquilidade e um belo cenário 

9- Um dos arrependimentos que eu tenho foi não ter conhecido de perto a ponte do Brooklin. “É só uma ponte!”. Não, não é! Também não visitamos o parque Luna Park em Coney Island, no Brooklyn (uma das atrações mais tradicionais da cidade, pelo menos entre os americanos); o bondinho que vai para Roosevelt Island; o ginásio Madison Square Garden; e os bairros Soho, TriBeCa e Greenwich. Fica para a próxima!

Nenhuma descrição de foto disponível.
Quero atravessar a Brooklyn Bridge apreciando a vista para linha do horizonte de Nova York

10- Eu adoro contar esse episódio porque ele sempre me faz rir. Estávamos perambulando pela região de Lower Manhattan, quando avistei bem grande “National Museum of the Indian”.

– Ah! Eu quero ir! Vamos, prima?

– Renata, é índio americano, tá?

OPS!

Eu desisti de vistar o museu. Acreditava piamente que fosse ver cocares e zarabatanas tupiniquins. Na verdade, eu topava qualquer coisa. Mas viajar demanda tempo, planejamento, money, disposição e muita organização.

NY cansou meus pés, me fez gastar tudo e mais um pouco, mas não me tirou a certeza de que voltarei um dia para:

  • Caminhar pelo Central Park e visitar alguns dos pontos mais icônicos, como o memorial “Strawberry Fields”, a fonte Cherry Hill, o Bethesda Terrace e a estátua de “Alice no País das Maravilhas”.
  • Apreciar Manhattan do alto do Empire State Building. Observar a Big Apple do alto do mais famoso de seus arranha-céus é um programa imperdível!
  • Visitar o Metropolitan Museum of Art (ou Met, para os íntimos) e caminhar pelo “Great Hall” (a entrada principal do prédio), pelo “Charles Engelhard Court” (com suas inúmeras esculturas) e pelo “Templo de Dendur” (paraíso de amantes da história do Egito Antigo), entre outros. 
  • Ir ao Domino Park, no Brooklyn; Lincoln Center e estúdios do canal ABC na Times Square.

Boa parte dessas atrações pode ser encontrada no site Virtual NYC, criado pelo NYC & Company, órgão de promoção turística da cidade, especialmente para esse período de quarentena e restrições de viagem. 

Em nota:

Assisti recentemente ao último filme de Woody Allen, “Um Dia de Chuva em Nova York”, uma verdadeira carta de amor do cineasta à cidade de Nova York.

Rodado quase inteiramente em Manhattan, o filme retrata dois namorados, Ashleigh (Elle Fanning), uma atrapalhada estudante de jornalismo, e Gatsby (Timothée Chalamet), um jovem bon vivant e pedante.

Duvido muito você não ter vontade de conhecer NY depois de ver esse longa.

Conserve seus sonhos. Nunca se sabe quando irão fazer falta.

Aprendi a dizer adeus

Eu não queria ter saído da casinha branca e vermelha na Rua Francisco Leitão aos prantos. Mas saí.

Eu não queria ter deixado a redação de muro laranja após ter brigado com a minha ex-chefe. Mas deixei.

Eu não queria ter ido embora carregando um monte de caixas de revistas quando me despediram. Mas fui.

Eu não queria ter pego aquele avião de volta ao Brasil. Mas peguei.

Eu não queria ter subido naquele ônibus de volta a Jundiaí. Mas subi.

Eu não queria ter entrado naquele carro. Mas entrei.

Eu não queria ter descido naquele metrô. Mas desci.

Eu não queria ter virado aquela esquina. Mas virei.

“A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama”, disse sabiamente o poeta francês Victor Hugo.

E para isso temos braços longos, para os adeuses.

Não foi nada fácil dizer adeuses. Foram tantos tchau, até logo, obrigada por tudo, não se esqueça de mim, valeu, que perdi as contas.

Mas aprendi, a duras penas, que é necessário desapegar. Finalmente entendi que não existe mais um amanhã para ele.

Foi preciso, a duras custas, me despedir de pessoas queridas para poder ajustar a rota e seguir adiante.

Foram-se os amores, as amizades, os empregos.

As vontades, os sonhos e os planos escapuliram-se das minhas mãos.

Viver é um interminável deixar ir para deixar vir. Ciclos se fechando, outros se abrindo. Numa dança ininterrupta.

Perceber que um ciclo se finda para outro começar, cheio de possibilidades, faz parte da jornada.

Normalizar ciclos encerrados não é o mesmo que dizer que eles não foram importantes ou significativos, mas sim criar espaço para novos ciclos.

Sobre recomeço e novos rumos

Viver é se reinventar.

Novos caminhos chegam para que a vida se renove.

Só que o desconhecido assusta, dá medo, e por isso, apesar das frustrações, quase todos recorrem ao que já conhecem.

Ao longo da vida, fazemos essa travessia (de mudança) incontáveis vezes.

O útero materno vira uma bolsa apertada demais para a nossa necessidade de correr o mundo; o trabalho, que um dia nos fascinou, deixa de nos desafiar; o relacionamento, que antes nos preenchia, não faz mais nossa alma saltitar. E assim por diante.

Na verdade, ansiamos por terra firme, quando “quer estejamos consciente ou não, o chão está sempre se movimentando”, nos lembra a monja budista tibetana Pema Chödrön no livro A Beleza da Vida: A incerteza, a mudança, a felicidade (Gryphus).

A paralisia é contra o pulsar da vida. E o que não se move, congela. Sem movimento, não há mudança e nem renovação. Se percebemos a vida dessa forma, podemos vivê-la com naturalidade.

A vida em nós pedindo mais vida e solicitando nossa participação ativa, o que requer estofo emocional para bancarmos escolhas que podem alterar bastante o nosso jeito de viver e se relacionar.

Baques que fazem doer

A dor da perda é imensurável. Raivosa. Suaviza ao longo dos dias, graças às atividades do dia a dia, mas não desaparece nunca. A gente apenas aprende a viver com ela.

Tem uma hora – e dizem que essa hora sempre chega – que para de doer. A parte chata é que, até parar de doer, parece que não vai parar de doer nunca.

Algumas “perdas” são livramento. Mas isso é assunto para outro post.

A vida é um eterno: rasgar-se e remendar-se!

Eventually time will take the sting away

PODEMOS PERDER MUITA COISA NESSA INTENSA CAMINHADA, MAS O QUE NÃO DEVEMOS NUNCA PERDER É A FÉ!

Não te rendas!

O pior dos temporais aduba o jardim. Sérgio Sampaio.

(Foto: Fineas Anton/ Unsplash)

Abra-se para as mudanças – Por Zack Magiezi

Mudar

De casa

De roupa

De caminho

De certezas

Mudar

De carreira

De meias

De cabelos

De amores

Mudar

De cidade

De calçada

De óculos

De hábitos

Mudar

É deixar com que os lugares

Sintam a nossa falta

Mudar é ir

Ir para uma parte desconhecida

Da nossa própria Geografia

Mudar

para continuar sendo

A versão mais verdadeira

De quem somos.

Reportagem da Ilustrada, na Folha de S. Paulo, mostrou recentemente que quando as pessoas passam por separações amorosas, começam a curtir músicas que jamais tinham ouvido antes – não só canções, mas gêneros musicais inteiramente novos.

Não é apenas a “dor de corno” que reabre nosso gosto para o novo. Mudar de um emprego que se tornou parte de sua personalidade tem um impacto tão grave quanto. São rupturas que dão uma espécie de choque neuroestético, que funciona como um “control-alt-del”: “reseta” o sistema operacional de nosso cérebro e deixa a mente aberta a novidades, quase como uma mente que “saiu de fábrica”, por assim dizer.

“Eu me esforço para viver cada dia como se fosse uma vida completa” – Sêneca.

Em momentos de crise, nosso futuro é obscuro. Não podemos mais viver na expectativa sobre coisas melhores que virão.

A chave para a realização está em aceitar a incerteza: lidar com um dia por vez e aprender a valorizar cada momento de prazer que ele contém.

No fim das contas tudo se resume em aceitar a impermanência das coisas.

Jornada da Escrita Afetuosa + 3 textos

Sempre quis fazer o curso de Escrita Criativa e Afetuosa, da jornalista e escritora Ana Holanda. O curso é um mergulho profundo no processo de escrita.

Nos últimos dias, participei do projeto “jornada da escrita afetuosa”, comandado por ela. Foram cinco encontros online com orientações para que consigamos escrever sobre o momento em que estamos vivendo e, assim, lidar com isso com mais sanidade, equilíbrio e até mais humanidade. 

Ana fala sobre o medo de escrever, de se expor, de parecer piegas. Um encontro que me deu a coragem necessária para colocar minhas palavras, finalmente, no mundo.

Como ela diz: “A palavra nos salva”.

A diferença entre escritores reais e pessoas que sonham em se tornar escritoras é apenas uma: coragem.

Foto: Cathryn Lavery/ Unsplash

Quadrinho

Olho para um pequeno quadro sem moldura e não-terminado no quarto do meu namorado. Sob a tela, estão pintados um mar azul, uma areia dourada e uma cesta de piquenique com frutas vermelhas e toalha azul de bolinhas brancas. E, rascunhados a lápis, um guarda-sol e duas esteiras de deitar.

Fico pensando: quem pintou este quadrinho? Por que começou e não terminou, e por que eu nunca falei dele ao meu namorado? Frequento este quarto há quase cinco anos. Aqui, perdi a conta de quantas vezes já dormi e acordei. Aqui, chorei, ri e emoções eu vivi. Aqui, falei sobre assuntos diversos: da piada do pintinho à doença da minha vó. Mas nunca, nunquinha, perguntei sobre o quadro mal acabado e a sua autoria.

Eu só reparei de verdade nele hoje, porque colocamos uma mesinha bem de frente. Assim, posso usar o computador enquanto passo a quarentena no quarto do meu namorado. E, desse jeito, ficou inevitável ignorá-lo.

Eu poderia escrever sobre como ver a imagem de uma praia me lembrou dos inúmeros momentos em que vivi com os pés na areia (porque, sim, foram muitos!). Mas, confesso: não sou muito fã de praia.

Sinto-me a pior das criaturas ao abordar este assunto. Porém, como escrever é um ato de coragem, digo a todos em alto e bom som que praia e queijo não fazem parte da minha lista de coisas preferidas da vida. Agora estou pronta para ser apedrejada.

Se tem a chata da comida, a chata da escola, a chata da família, a chata da academia, a chata da limpeza, a chata do passeio, a chata das compras, a chata do relacionamento, por que eu não posso ser a chata da praia?

Tenho a minha cadeira de deitar e o meu guarda-sol. Não entro no mar, não tomo sol. Não gosto de vento, de correr e de reaplicar protetor solar.

Gosto de sombra, milho e biscoito de polvilho.

Gosto de caminhar, ler e observar o cenário.

Gosto de conversas amenas e cochiladas esporádicas.

Voltando ao quadrinho.

Meu namorado acaba de entrar no quarto. Poderia perguntar a ele, neste exato momento, sobre o tal objeto. Ele poderia me responder: “Ah, este quadro foi pintando pela minha tia. Sei lá porque não está terminado. Dever ter acabado a tinta ou enjoado de pintar”. Prefiro ficar quieta.

Desculpe-me, leitores. Mas não quero saber quem o fez. Imagino que quem os fez escolheu deixar assim, para que possamos refletir sobre coisas que não têm fim, apenas começo e meio, como histórias inacabadas, na qual não sabemos como tudo termina.

Odete

Eu pedi a minha mãe o WhatsApp da Odete, sua prima que mora em outra cidade. Ela me perguntou o porquê e respondi dizendo que gostaria de enviar a ela fotos do nascer e do pôr do sol. Simples assim.

Começamos a trocar mensagens: eu e Odete. Não escrevemos quase nada, no máximo “bom dia” e “boa noite”. Apenas enviamos uma a outra, de forma espontânea, fotos bonitas.

Eu adoro ver o laranja do pôr do sol. Sempre acho que Deus está ali presente.

A primeira vez que avistei Odete foi numa casa de repouso, onde uma tia nossa estava internada. Odete apareceu reluzente: loira, cabelos esvoançantes, olhos azuis, bochechas rosadas e fartas.

Depois, encontrei-a numa festa de aniversário da minha mãe. Odete sempre foi muito simpática comigo. Em nosso último encontro, eu estava bastante triste. Ao me ver, ele disse: “Renatinha, linda como sempre”.

Percebo que Odete, assim com as suas fotos de céu, aparecem na hora certa. Neste tempo duro no qual estamos vivendo, o gesto de Odete me afaga, mesmo à distância e sem palavras.

Foto: Mario Purisic/ Unsplash

O que eu aprendi na quarentena

Aprendi na quarentena a ser mãe de pet.

Nos últimos anos, eu quis ter um gato peludo branco, cujo nome seria Sushi ou Shoyu, ou um cachorro peludinho, fofinho, super comportado, o Ulisses.

Não movi uma palha para tê-los.

Na última semana, um vira-lata caramelo e branco, orelhudo, de dentes tortos e patas longas e finas, apareceu na minha vida. Eu e meu namorado herdamos o Pascal, Pacal, Paquito, Pasca, Pac, Paquí, Quiquito, Quito, Quí, Mozão Piludo, Píqui, Piquí, Pí, Piriquito, Piriquí.

Primeiramente, aprendi que cachorros soltam pelos por toda a casa. Cachorros lambem a gente quando estão felizes. Cachorros querem comer tudo o tempo todo. Cachorros fazem suas necessidades onde der na telha. Cachorros têm hora para dormir e para acordar (a dele). Cachorros querem brincar em momentos inoportunos. Cachorros têm seus brinquedos preferidos, e geralmente são os mais xexelentos. Cachorros precisam ter as patas lavadas antes de entrar em casa – e eles odeiam isso. Cachorros às vezes aparecem cheirando a carniça. Cachorros precisam tomar banho – e eles odeiam isso. Cachorros deixam a casa cheirando a cachorro. Cachorros sabem fazer cara de dó quando querem alguma coisa. Cachorros demandam money. Cachorros levam o dono para passear, e não o contrário. Cachorros levantam-se rapidamente quando você vai para a cozinha. Cachorros querem atenção. Cachorros vomitam à noite.

O combinado era deixar o Pascal lá fora, mas – aos pouquinhos – ele foi para a sala, para o quarto ao lado, até que, numa noite, eu o vi na beirada da cama.

Aprendi que ele quer ficar juntinho e, quando não está, eu o quero por perto.

Aprendi que quem cuida se torna potente.

Os animais de estimação têm sido o paradigma da companhia perfeita, afinal, eles nos são fiéis e nunca discordam.

Spending My Tenderness on Animals (Foto: Unsplash)

Domingo de Páscoa

Eu nunca desejei tanto um churras familiar como no dia de hoje.

Quero entrar na casa com ares de Disney da Tia Eliana, estreando meu vestido parcelado da Farm.

Quero ver o Tio Fernando ao lado da churrasqueira, segurando o espeto numa mão e a cervejinha na outra.

Quero cumprimentar meus tios “gente boa”, Tiozão e a Vanda. Quero escutar as risadas do Tio Cláudio intercaladas com a sua expressão italiana preferida: “Dio Madona!”.

Quero ouviu meu pai contando uma história engraçada, muitas vezes por influência da caipirinha, ao mesmo tempo em que Fernanda e Nicolas estão mais interessados nas carnes nobres que saem dos espetos.

Quero rir com os meus queridos primos Du e Lari, e relembrar dos causos em Cambury.

Alerta de spoiler: quando finalmente o Du se preparava para usufruir da sua cadeira de sol, de frente para o mar, uma forte onda o atingia levando sua esposa, seus dois jornais e todo o resto. O jeito foi espalhar as páginas dos jornais no quarto e esperar secar para poder lê-los no dia seguinte. Por favor, imaginem a cena. É do Du que estamos falando.

Quero rever Murilo e Amandinha, presenças VIPs que sempre abrilhantam os eventos familiares!

Opa! Biel, Tami e Lulu estão chegando.

A pequena já anda pela casa e fala algumas palavras. Muita fofura para quem tem menos de um metro de altura.

Vejo minha mãe colocando a maionese na mesa de madeira enquanto Tia Elenice termina de mexer o “risóto” sabor moela no fogão. Tio Tutinho e Tia Selma se oferecem para ajudar; Matheus e Felipe, para servir.

Diego está feliz de pé (por que ele nunca senta? Por que ele nunca tá borocoxô?). Ao seu lado, Millene tenta decorar mentalmente nossa árvore genealógica e entender em qual galho entram Nene, Tio Gerardo, Fina e, claro, Ada.

Um pouco atrasados, chegam Alex, Flávia, Bella e Vicenzo, o qual some na mesma hora para jogar bola com o Dani. Bella vem carregada de coisas: toalha para piscina, jogo Detetive e livro de pintar.

Este último chama a atenção da Bárbara, que adora desfrutar de momentos artísticos nos almoços de domingo. Eli também está ali, sempre disposto a cochilar no sofá da sala.

Então, a chegada mais esperada de todas finalmente acontece. Paula, Yuri e Raul. Pela primeira vez, o nosso ursinho sai de casa para passear. Ele está dormindo em seu bebê-conforto, usando macacão novo com cheiro de amaciante Fofo. Todo mundo quer ver, pegar no colo e palpitar sobre as suas feições. Até a Clarinha quer conhecer o novo membro da família.

E a ? A vó Santina permanece sentadinha, observando o ambiente e pensando: “Que paiaçada!”.

Sim, vó, nossos churras são sempre uma paiaçada: começa com falação, parte para a comida e termina com mais falação e mais comida ainda. Mas é uma paiaçada deliciosa e tá fazendo falta!

Paiaçada! (Foto: Cristian Newman/ Unsplash)