Hoje eu acordei

#Cena1

Hoje eu acordei às 8h30.

Ops! Antigamente eu levantava da cama às 7h. Tudo bem, ainda está dentro do limite. Depois das 9h, eu não me perdoo.

Resolvo ligar a TV antes de me levantar.

Ops! Antigamente eu me alongava, ia ao banheiro e só depois ligava a tela. Tudo bem, está tudo muito confuso no momento. Não tem problema inverter a ordem.

O QUÊ?

Estão dizendo que a vacina da Covid-19 foi aprovada!

Pego o meu celular para checar:

– 159 mensagens no grupo das jornalistas;

– 89 mensagens no grupo da família;

– e mais centenas de outras msgs.

A vacina começará a valer a partir de amanhã. Aleluia!

Então, a partir de amanhã, o mundo voltará ao normal.

#Cena2

Hoje eu acordei às 8h15.

Já estou atrasada para tomar a vacina. O postinho está aberto desdes as 6h. Sigo pra lá, sem me alongar.

O QUÊ?

Dou de cara com uma fila de dobrar o quarteirão, que me lembra a vez em que fui à montanha-russa de madeira no Hopi Hari.

Abandono a ideia de tomar a vacina hoje. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

#Cena3

Hoje eu madruguei.

Sim, são antes das 7h e eu já estou na fila. Preparada e alongada.

O QUÊ?

Acabaram-se as vacinas.

Saco. Fica pra amanhã. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

#Cena4

Hoje eu acordei às 8h.

Hoje eu fico na fila, faça chuva ou faça sol.

Fui pra fila, me mantive na fila, escutei podcast na fila, fiz amizade na fila, comi na fila, joguei candy crush na fila, me alonguei na fila.

Estou há 5h30 numa fila, que me lembra a vez em que fui assistir Titanic no cinema.

O QUÊ?

Finalmente chegou a minha vez!

Ai, é vacina. Odeio vacinas.

Mas eu tenho que gostar dessa. Foco no meu sobrinho para esquecer a dor. Que carinha fofa. Finalmente vou poder carregar esse menininho no colo!

Foco na minha sobrinha. Que carinha fofa. Finalmente vou poder abraçar essa menininha chata de galocha.

Cena 6

Hoje eu acordei às 9h15.

Não tem problema. Hoje eu tô vacinada. Hoje eu tô feliz. Começo a me alongar, ligo a TV e checo o celular, tudo ao mesmo tempo:

– 268 mensagens no grupo das jornalistas;

– 129 mensagens no grupo da família;

– e mais milhares de outras msgs.

O QUÊ?

Estão dizendo que a vacina não faz efeito.

Ah, não. Vai começar tudo de novo….

Volto a dormir. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

(Foto: Emily Morter / Unsplash)

Palavras que fazem PLIN!

(Eu faço listas. Muitas. Numa delas elenquei palavras que fazem PLIN quando alguém as emite. Resolvi unir essas palavras que fazem PLIN numa narrativa ficcional. Eis o resultado da minha colcha de retalhos. Ops! Colcha de palavras que fazem PLIN!)

(Foto: Cody Metcalf / Unsplash)

Numa tarde modorrenta, derrubei feito uma paspalha a marinex da minha mãe Georgina ao meter o bedelho nas suas mariolas cheias de picância, requentadas e muxibentas.

Sem pestanejar, fui tomada por um prazer inenarrável. O momento Eureka tinha renascido!

Aconteceu tudo de forma espalhafatosa, de supetão. Deu chabu, claro. Esse episódio causou um quiproquó e rendeu uma cicatriz no meu cocuruto. Foi um furdunço, um bololô.

Pela primeira vez na vida, emudeci. Adeus, acalanto.

Não sei se a minha mãe ficou fula da vida e cabisbaixa por conta da travessa de vidro espatifada, que era da tia Cidinha, ou do doce de banana/caju que elvis.

Só sei que eu, sua pupila, a decepcionei mais de uma vez. Eu era a centelha da família, aquela que todo mundo esperava ver brilhar. Ninguém fazia muxoxo a respeito de mim.

Dei um pinote alucinado e torrei os pacovás de todo mundo ao longo da minha infância! Eu achava graça no meu jeito traquinas de ser, zanzando para cima e para baixo pelas ruas.

Bendita hora em que fui despejar essa bigorna! Que frisson causou tudo isso!

A gentarada toda quis ver a desova do vasilhame. Quanta balbúrdia fui capaz de causar por causa de um pirex mambembe e démodé! A borda estava toda carcumida!

A molecada escafedeu-se quando comecei a chorar como madalena arrependida. Eu estava com um aspecto deplorável.

“Chega de firula”, mainha gritou. “Vou te dar um safanão!”, continuou muito pê da vida. Ainda meio abobalhada, parei para esfriar a moleira.

Ela havia pedido para usar seus cacarecos de cozinha com parcimônia, pois, segundo tia Filó, que agita as pestanas e solta perdigotos quando fala, “foram uma barganha”.

Demasiadamente, sinto-me uma palerma por ser tão estabanada. Possuo um tipo de cacoete que não me deixa equilibrar as coisas direito. Além disso, sou péssima na cozinha: os meus bolos sempre batumam (eu devo untar a forma?) e não sei sovar o pão direito. Mas depois de pronto, gosto de potchar o miolo no ovo, ou comê-lo com jerimum. Dá até pra fazer croquete!

Esses pratos teriam sido bem mais palatáveis. Saudades de uma feijuca.

Deve ser por isso que não namoro gentleman de sorriso jocoso e Gomalina nos cabelos, nem desfruto dos seus benesses. Só saio com mocorongos e acredito em seus discursos nada fidedignos, sendo que a maioria deles tem nome pitoresco.

O último foi o Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo. Até hoje me recordo do seu olhar brejeiro e de suas piscadelas, quando passeávamos no campo de papoulas.

Uma antiga rusga jamais superada.

Teve o Percival também, ele era bem turrão e misturava leite com Gardenal. Um tchongo que se bandeou para o lado, em busca de ninfetas e sirigaitas.

Outro canastrão e risonho foi o Donizete, com seus olhos azuis e fartas sobrancelhas grisalhas que lhe davam um ar duendil. Pena que era bebum e só pensava em rastelar o jardim.

Ele era canhota e todo desleixado em relação à vestimenta. Um verdadeiro energúmeno! Quantas vez tive que dizer: “Essa blusa não orna!”. “Gosto de me vestir de matuto”, respondia todo pimpão.

Ah, o Aristides! Medito a sabichão.

Eu quero mesmo um homem que usa pulôveres de cashmere, não pantufas. E sem idiomas macarrônicos. Não sei lhufas sobre eles.

Com maestria, envolvo-me em casos extraconjugais e entro de gaiata neles. Aguardo o lusco-fusco do céu para mandar umas talagadas pra dentro, cujo acúmulo acabava em madrugadas escangalhadas.

Aos poucos, me dei conta de que aquela ogra que eu me tornava na calada da noite me levava cada vez mais longe da minha natureza. Eu voltava para casa totalmente desanimada, murcha.

Minha família nunca entendeu patavina sobre meu problema, mesmo sendo um esteio para todas as horas. Consome outro naco de nossa vida.

Eu até encomendei alguns fascículos com dicas de relacionamento e mordiscadinhas, mas só recebi filipetas com descontos para cursos de papietagem. Eu que não tenho tutu para isso!

Jamais me passaria pela cachola, mas também tentei uma pajelança indígena. Só que fitoterápico não é panaceia.

Essa história bisonha me dá uma ziquizira. Chego até ter tremeliques e piriri só de relembrar as caras dos empiastros. Pelo menos não tenho oxiúro, apenas comichão.

Resolvo dar um peteleco em mim mesma para evitar os espasmos. O meu humor ficou azedume diante dessa prosa bizarra.

Quanta falácia! O importante é que comecei a farejar embuste de longe, assim como o chorume, para evitar os faniquitos e dar um arremate de vez na minha vida, antes de cair numa nova arapuca!

Depois dessa minha epifania, se encontrar os estrupícios novamente, sou capaz de cortar seus pingulins e jogá-los no estrume!

“Dou-lhe uma”!

Periga eu morrer de velha sem conhecer anjos alados cheios de candura.

Eu amo essa sinceridade acachapante

Vamos falar sobre a pandemia?

Mudando de tom para um bem menos pernóstico. Muitas mudanças aconteceram no nosso modus operandi. Alguma coisa degringolou.

Por que as pessoas não ficam em casa, fazendo coalhada e assistindo ao quadro da Ananda Apple, ao invés de irem a rua em busca de falcatruas? Eu, que sou uma pessoa cosmopolita, estou bem ferrada sem ganhar um tostão. Uma comunista consumista vestida de pijama felpudo, fazendo macramé e arrumando meus cacarecos com os penduricalhos.

Mesmo cafusa, não deixo de ver o desabrochar das flores, nem o farfalhas das folhas prontas para cair. Parece até sandice da minha parte.

Como agir diante dessa podridão ferrenha? Vejo tantas imundices por aí, que mandaram às favas as regras de distanciamento.

Tem gente que tenta mocozar. Eu mesma dei as minhas escapadelas e agi como uma lambisgoia! Que mausoléu.

Estava lumbriguenta para sair de casa. Sou muito rabuda. Depois me arrependia, claro.

Por motivos esconsos, deixo a verdade de lado. Pareço o roto falando do rasgado.

Com a parca oferta de dramaturgia ou realities inéditos, uma boa fofoca vai muito bem.

Antes que a embromação vá adiante, uma pitada de empatia e outra de senso crítico também ajudam bastante. Não estou fazendo troça da situação.

Em nome de certo decoro, chega de ficar dando pitaco. E aqui estamos nós chafurdando. Decido me enveredar pela poesia.

Sem grandes firulas, gratidão pela leitura depois de toda essa papagaiada. Gosto de escrever melífluas cheias de pompa.

Agora, chega de petiscos.

Sem pestanejar, vejo pipocar comentários estapafúrdios e, a posteriori, petulantes abaixo…

Quero mandar às favas! Ceifou-se a minha alegria.

Ganhos da quarentena

Não foram só quilos e espinhas que ganhei neste período incerto e nebuloso em que estou vivendo.

Descobri online algumas grandes pessoinhas que passaram a fazer a diferença no meu dia a dia. Eu as sigo quase que diariamente a fim de me alimentar dos seus conteúdos os quais, sem dúvida, conectam comigo e colaboram para construção do meu conhecimento.

Eu as chamo de musa, gêmea, mentora, amada, deusa, guru. Na verdade, gostaria mesmo de chamá-las de amigas, daquelas que a gente sai para tomar café e comer pão de queijo e claro papear sobre a vida.

A internet tem me possibilitado acessos inimagináveis, tenho aprendido muito sobre produção de conteúdo, militância e cultura negra.

Eis os meus ganhos, pessoas muito boas, que eu admiro:

– Ana Holanda

Muita gente fala que os cursos de escrita da Ana são maravilhosos e mudam a vida de quem escreve (ou não). Eu gosto bastante de quando ela fala sobre escrita afetiva, de vir de dentro, de jogar luz e de compartilhar com o outro nossas palavras.

Tive a oportunidade de escutá-la em algumas lives e, realmente, os papos com a Ana se resumem em aprendizado e afeto. Ana espalha amor pelas palavras. O seu melhor conselho é esse: deixe a palavra te conduzir.

Às vezes o texto dói, às vezes te alegra ou entristece. Palavra é sentida, no corpo e na alma. Sempre foi. A gente é que abafou e se blindou deste sentir. Perceba os desconfortos que a escrita lhe causa, eles podem lhe ser seu guia. A gente escreve pra se encontrar com a gente.

– Beta

Eu já contei a ela que foi por causa do seu extinto blog que comecei a escrever o meu. O nome da Beta encabeça a minha lista de inspirações. Tudo que ela publica eu aplaudo. Também me identifico com o seu olhar melancólico diante das incertezas do momento.

Ela me lembra uma personagem de filme noir francês. Poemas, artes, fotos, letra; tudo que compõe seu feed tem um ar de indie classudo.

– Ana Lu

Tenho vontade de colocar a Aninha dentro de um potinho de tão preciosa que ela é.

Ela escreve de dentro (discípula de Ana H.), de forma simples e potente. As palavras que saem do fundo do seu coração brotam direto na tela do meu celular, em forma de notificação. Além disso, a Ana curte os podcasts que eu escuto, lê Vida Simples, é fã de Ruth Manus e Martha Medeiros, é a louca das listas e ainda faz rotina de skincare.

Ou seja, A GENTE TEM ASSUNTO PRA VIDA INTEIRA.

– Maria Vitória

Maravilhosa. A cada post seu, eu me vejo sentada numa sala de aula com caderno e caneta a postos, já que seus conteúdos ajudam escritores independentes e produtores de conteúdo, assim como eu.

Ela fala sobre estratégias para instagram, escrita criativa, produção de conteúdo e vivências negras.

Ela também é extremamente necessária quando o assunto é: desigualdade racial, racismo e seus efeitos.

Eu abri a minha bolha branca cheia de privilégios e a convidei para uma visita. Ela não só aceitou como me respondeu:

“O processo de desconstrução do ser humano é a passagem da vida mais importante e significativa, uma vez que se percebe seu lugar no mundo e entende as condições sociais ao qual se está inserido e tenta, de uma maneira singular mudar a realidade. Gostei muito das suas reflexões e informações, são posts realmente bem estruturados e que mostram várias verdades e apontamentos racistas em que as pessoas brancas adotam ao longo de suas vidas. É uma leitura leve e didática, mesmo o assunto sendo extremamente sério e isso é muito bom, porque traz a opção de atingir muito mais pessoas. Obrigada por compartilhar seus textos comigo, estou passando a seguir seu blog para acompanhar mais de perto os próximos temas que virão”.

– Bruna Cosenza

Criadora do meu blog preferido, Para Preencher, cujas palavras transbordam sentimentos. As suas dicas de escrita caem como uma luva para mim. Ela também fala sobre a liberdade de ser freelancer, felicidade e gratidão, saúde mental e tantos outros assuntos dos quais muito se fala hoje em dia. Sempre de forma LEVE.

Por muito tempo, eu deixei de escrever porque achava que precisava aprender tudo antes para ter um texto perfeito. A Bruna me ensinou que devo apenas escrever, sem rodeios e sem pensar muito. SEM MEDO!

“Escrevo para preencher quem está vazio, quem está pela metade. Para Preencher alguém em algum lugar”.

Iruama Santana

Mais uma blogueira/ influenciadora falando sobre cuidados com a pele, beleza e bem-estar! NÃO! A Iru trata desses assuntos (de suma importância para mim, ok?) de forma humanizada, real.

Vocês não têm ideia do quão complexo é lidar com a pele. Mas a Iru tem! Ela narra seus altos e baixos no convívio com a rosácea, divide seus tratamentos e suas frustrações. Ah, e sempre responde os meus comentários e directs. Adoro!

Seu maior segredo de beleza? “Paciência e dedicação valem a pena, sempre, em qualquer área da vida”.

“Será que a gente precisa estar 100% para se sentir 100%? Já disse que não enxergo coisas normais da pele, poros, por exemplo, como imperfeições. São características normais. É claro que algumas características mais acentuadas podem incomodar. Porém, tentar controlar tudo para manter um padrão inventado e espúrio nos leva a uma constante insatisfação.

Pois, o que nos parece grande, aos olhos de outras pessoas, pode nem ser nada. Porém, há mais uma coisa: ter me desligado dessa questão da acne durante o dia inteiro, me fez nem pensar ou perceber se estavam reparando ou não… A mudança que queremos, realmente, começa em nós”. ⁣

Edgard Abbehusen

Quem me indicou o instagram do jornalista baiano que se diz sonhador de um mundo melhor foi minha best Neide.

Desde então, suas publicações de textos, frases, crônicas e poemas de amor são aplaudidas por mim e mais uma legião de seguidores.

Para todos que estão vivendo um momento difícil, as palavras do Edgard nos ajudam a reaprender a amar e a continuar. A fazer novos caminhos, outras escolhas.

“Edgard cuida de si e do outro quando escreve. É cuidado em forma de palavra”. – BRÁULIO BESSA, POETA E ESCRITOR.

Pastor Henrique Vieira

Pastor, ator, escritor, poeta e militante na defesa dos direitos humanos. Bastou escutá-lo uma vez no podcast Mamilos, junto com a psicanalista Maria Homem, que passei a segui-lo e a escutar suas falas calmas e tocantes sobre fé, amor e revolução.

Ele me faz olhar para dentro e para fora, com solidariedade e compaixão. Ele me faz acreditar que o sol não deixa de brilhar mesmo em dias chuvosos!

Ele me ajuda a ter fé na vida, confiança na bondade e perseverança no amor.

“Não temos controle sobre todas as variáveis da vida. Esta perspectiva não deve nos levar ao desespero, mas provocar em nós a valorização das coisas simples e singelas, do tempo presente. Deve nos levar ao cuidado conosco e com o próximo. Deve nos despir de toda vaidade e ganância e abrir nosso peito para um encontro fraterno com a humanidade. Diante da nossa fragilidade podemos dar um sentido mais intenso e amoroso para nossa existência. Olhar para dentro e acolher nossa fragilidade e olhar para fora e amar a humanidade e toda Natureza da qual ela faz parte”.

Oi, Renata

Os homens sempre vão para a cama sonhando com Gilda (do filme) e se decepcionam ao acordar ao lado de Rita”. – Rita Hayworth.

É difícil ser você. É fácil ser você. Depende do dia, do jeito que acordou, do pensamento que brotou na sua mente logo nos primeiros instantes em que abriu os olhos.

Nos dias bons, sou apaixonada por você. Adoro o seu sorriso. Sei que a batalha para tê-lo do jeitinho que você o quer tem sido longa. Aparelhos, clareamento, dinheiro.

Adoro a sua voz, as suas ideias, as suas histórias, as suas cantorias.

Gosto do seu bom-humor. Você é cativante. Carismática. É bom ter você por perto, na roda. É bom ser você.

No dias ruins, eu sei, é difícil ser você. Seus pensamentos te sabotam a todo momento e te levam a um lugar escuro, sem paz, sem amor e sem música. É difícil para nós domá-los. Às vezes temos que apelar para um comprimidinho só para a tortura ter um fim. Só que ela nunca tem fim.

É delicioso ser você. É delicioso ter seu estilo, seu corpo, seus cuidados, suas opiniões, suas escolhas. Aprovo todas elas.

É tenso ser você. Você avacalha, você faz coisas erradas, você não tem juízo! Tudo bem, eu te perdoo, mas será você que não vai aprender nunca, Renata? Quantas vezes eu já te disse que carboidrato à noite não é legal, que ficar stalkeando perfis de instagram não te faz bem, que não se deve ler bula de remédio nem procurar no google efeitos colaterais.

Diga-me, por que você foi gastar R$ 200 e alguns num pijama? Agora, eu tenho que vestir camiseta velha pra dormir porque a senhorita fica com dó de usar a iguaria.

Que orgulho tenho de você! Foram tantos desmaios, tantos choros, tantas lamentações, tantas dores, tantas rezas e você continua de pé. Parabéns pela sua trajetória, garota!

Continue assim, um dia de cada vez e você chega lá!

Agora, chega! Chega de continuar assim, né, Renata?

Levante-se dessa cadeira e vá correr atrás dos seus sonhos, garota!

Estamos entendidas?

Assinado, Renata.

Take Me as I Am, Whoever I Am

In love there’s no hiding: You have to let someone know who you are.

I would have cried from the sheer monotony of it, but tears were too much effort.

I had met the enemy enough times to know it by sight.

“Who are you?” the questionnaire asks at the start.

I want to be honest, but I don’t know how to answer. Who am I now? Or who was I then?

(continue vivendo com dor, alegria, amor, memórias)

Metade – Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
.

Nem todas as nossas neuras Freud explica.

Fique no seu quentinho

Escrevi esse texto pensando na Flavinha Fernandes, em mim, no Raul e em todas as pessoas que são adeptas de uma vida mais quentinha, protetora e acolhedora.

A vida pede tantas vezes para irmos lá fora.

A vida pede tantas vezes para sairmos do nosso conforto.

Mas, hoje, você pode se manter no seu quentinho.

Sim, amiga, fique no seu quentinho.

Sinta o quentinho da água que escorre ralo abaixo durante o banho.

Envolva-se no quentinho do edredom.

Vista-se do quentinho do moletom, do pijama e das meias.

Enrole-se no quentinho da manta no sofá.

Saboreie o quentinho do sopão Maggi.

Beba o quentinho do chá das cinco, do café da tarde com bolo mata-fome da vó.

Hospede-se no quentinho aconchegante do seu lar.

Embale-se no quentinho do sono dos justos.

Sintonize-se no quentinho do filme água com açúcar da sessão da tarde.

Deite-se no quentinho do colo de Deus.

Receba essa mensagem dentro de um abraço bem quentinho. O meu.

(Foto: Rawpixel/ Unsplash)

Lenine – “É O Que Me Interessa” 

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
E o vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto
E é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou

Me traz o teu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa