Aprendi a dizer adeus

Eu não queria ter saído da casinha branca e vermelha na Rua Francisco Leitão aos prantos. Mas saí.

Eu não queria ter deixado a redação de muro laranja após ter brigado com a minha ex-chefe. Mas deixei.

Eu não queria ter ido embora carregando um monte de caixas de revistas quando me despediram. Mas fui.

Eu não queria ter pego aquele avião de volta ao Brasil. Mas peguei.

Eu não queria ter subido naquele ônibus de volta a Jundiaí. Mas subi.

Eu não queria ter entrado naquele carro. Mas entrei.

Eu não queria ter descido naquele metrô. Mas desci.

Eu não queria ter virado aquela esquina. Mas virei.

“A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama”, disse sabiamente o poeta francês Victor Hugo.

E para isso temos braços longos, para os adeuses.

Não foi nada fácil dizer adeuses. Foram tantos tchau, até logo, obrigada por tudo, não se esqueça de mim, valeu, que perdi as contas.

Mas aprendi, a duras penas, que é necessário desapegar. Finalmente entendi que não existe mais um amanhã para ele.

Foi preciso, a duras custas, me despedir de pessoas queridas para poder ajustar a rota e seguir adiante.

Foram-se os amores, as amizades, os empregos.

As vontades, os sonhos e os planos escapuliram-se das minhas mãos.

Viver é um interminável deixar ir para deixar vir. Ciclos se fechando, outros se abrindo. Numa dança ininterrupta.

Perceber que um ciclo se finda para outro começar, cheio de possibilidades, faz parte da jornada.

Normalizar ciclos encerrados não é o mesmo que dizer que eles não foram importantes ou significativos, mas sim criar espaço para novos ciclos.

Sobre recomeço e novos rumos

Viver é se reinventar.

Novos caminhos chegam para que a vida se renove.

Só que o desconhecido assusta, dá medo, e por isso, apesar das frustrações, quase todos recorrem ao que já conhecem.

Ao longo da vida, fazemos essa travessia (de mudança) incontáveis vezes.

O útero materno vira uma bolsa apertada demais para a nossa necessidade de correr o mundo; o trabalho, que um dia nos fascinou, deixa de nos desafiar; o relacionamento, que antes nos preenchia, não faz mais nossa alma saltitar. E assim por diante.

Na verdade, ansiamos por terra firme, quando “quer estejamos consciente ou não, o chão está sempre se movimentando”, nos lembra a monja budista tibetana Pema Chödrön no livro A Beleza da Vida: A incerteza, a mudança, a felicidade (Gryphus).

A paralisia é contra o pulsar da vida. E o que não se move, congela. Sem movimento, não há mudança e nem renovação. Se percebemos a vida dessa forma, podemos vivê-la com naturalidade.

A vida em nós pedindo mais vida e solicitando nossa participação ativa, o que requer estofo emocional para bancarmos escolhas que podem alterar bastante o nosso jeito de viver e se relacionar.

Baques que fazem doer

A dor da perda é imensurável. Raivosa. Suaviza ao longo dos dias, graças às atividades do dia a dia, mas não desaparece nunca. A gente apenas aprende a viver com ela.

Tem uma hora – e dizem que essa hora sempre chega – que para de doer. A parte chata é que, até parar de doer, parece que não vai parar de doer nunca.

Algumas “perdas” são livramento. Mas isso é assunto para outro post.

A vida é um eterno: rasgar-se e remendar-se!

Eventually time will take the sting away

PODEMOS PERDER MUITA COISA NESSA INTENSA CAMINHADA, MAS O QUE NÃO DEVEMOS NUNCA PERDER É A FÉ!

Não te rendas!

O pior dos temporais aduba o jardim. Sérgio Sampaio.

(Foto: Fineas Anton/ Unsplash)

Abra-se para as mudanças – Por Zack Magiezi

Mudar

De casa

De roupa

De caminho

De certezas

Mudar

De carreira

De meias

De cabelos

De amores

Mudar

De cidade

De calçada

De óculos

De hábitos

Mudar

É deixar com que os lugares

Sintam a nossa falta

Mudar é ir

Ir para uma parte desconhecida

Da nossa própria Geografia

Mudar

para continuar sendo

A versão mais verdadeira

De quem somos.

Reportagem da Ilustrada, na Folha de S. Paulo, mostrou recentemente que quando as pessoas passam por separações amorosas, começam a curtir músicas que jamais tinham ouvido antes – não só canções, mas gêneros musicais inteiramente novos.

Não é apenas a “dor de corno” que reabre nosso gosto para o novo. Mudar de um emprego que se tornou parte de sua personalidade tem um impacto tão grave quanto. São rupturas que dão uma espécie de choque neuroestético, que funciona como um “control-alt-del”: “reseta” o sistema operacional de nosso cérebro e deixa a mente aberta a novidades, quase como uma mente que “saiu de fábrica”, por assim dizer.

“Eu me esforço para viver cada dia como se fosse uma vida completa” – Sêneca.

Em momentos de crise, nosso futuro é obscuro. Não podemos mais viver na expectativa sobre coisas melhores que virão.

A chave para a realização está em aceitar a incerteza: lidar com um dia por vez e aprender a valorizar cada momento de prazer que ele contém.

No fim das contas tudo se resume em aceitar a impermanência das coisas.

Jornada da Escrita Afetuosa + 3 textos

Sempre quis fazer o curso de Escrita Criativa e Afetuosa, da jornalista e escritora Ana Holanda. O curso é um mergulho profundo no processo de escrita.

Nos últimos dias, participei do projeto “jornada da escrita afetuosa”, comandado por ela. Foram cinco encontros online com orientações para que consigamos escrever sobre o momento em que estamos vivendo e, assim, lidar com isso com mais sanidade, equilíbrio e até mais humanidade. 

Ana fala sobre o medo de escrever, de se expor, de parecer piegas. Um encontro que me deu a coragem necessária para colocar minhas palavras, finalmente, no mundo.

Como ela diz: “A palavra nos salva”.

A diferença entre escritores reais e pessoas que sonham em se tornar escritoras é apenas uma: coragem.

Foto: Cathryn Lavery/ Unsplash

Quadrinho

Olho para um pequeno quadro sem moldura e não-terminado no quarto do meu namorado. Sob a tela, estão pintados um mar azul, uma areia dourada e uma cesta de piquenique com frutas vermelhas e toalha azul de bolinhas brancas. E, rascunhados a lápis, um guarda-sol e duas esteiras de deitar.

Fico pensando: quem pintou este quadrinho? Por que começou e não terminou, e por que eu nunca falei dele ao meu namorado? Frequento este quarto há quase cinco anos. Aqui, perdi a conta de quantas vezes já dormi e acordei. Aqui, chorei, ri e emoções eu vivi. Aqui, falei sobre assuntos diversos: da piada do pintinho à doença da minha vó. Mas nunca, nunquinha, perguntei sobre o quadro mal acabado e a sua autoria.

Eu só reparei de verdade nele hoje, porque colocamos uma mesinha bem de frente. Assim, posso usar o computador enquanto passo a quarentena no quarto do meu namorado. E, desse jeito, ficou inevitável ignorá-lo.

Eu poderia escrever sobre como ver a imagem de uma praia me lembrou dos inúmeros momentos em que vivi com os pés na areia (porque, sim, foram muitos!). Mas, confesso: não sou muito fã de praia.

Sinto-me a pior das criaturas ao abordar este assunto. Porém, como escrever é um ato de coragem, digo a todos em alto e bom som que praia e queijo não fazem parte da minha lista de coisas preferidas da vida. Agora estou pronta para ser apedrejada.

Se tem a chata da comida, a chata da escola, a chata da família, a chata da academia, a chata da limpeza, a chata do passeio, a chata das compras, a chata do relacionamento, por que eu não posso ser a chata da praia?

Tenho a minha cadeira de deitar e o meu guarda-sol. Não entro no mar, não tomo sol. Não gosto de vento, de correr e de reaplicar protetor solar.

Gosto de sombra, milho e biscoito de polvilho.

Gosto de caminhar, ler e observar o cenário.

Gosto de conversas amenas e cochiladas esporádicas.

Voltando ao quadrinho.

Meu namorado acaba de entrar no quarto. Poderia perguntar a ele, neste exato momento, sobre o tal objeto. Ele poderia me responder: “Ah, este quadro foi pintando pela minha tia. Sei lá porque não está terminado. Dever ter acabado a tinta ou enjoado de pintar”. Prefiro ficar quieta.

Desculpe-me, leitores. Mas não quero saber quem o fez. Imagino que quem os fez escolheu deixar assim, para que possamos refletir sobre coisas que não têm fim, apenas começo e meio, como histórias inacabadas, na qual não sabemos como tudo termina.

Odete

Eu pedi a minha mãe o WhatsApp da Odete, sua prima que mora em outra cidade. Ela me perguntou o porquê e respondi dizendo que gostaria de enviar a ela fotos do nascer e do pôr do sol. Simples assim.

Começamos a trocar mensagens: eu e Odete. Não escrevemos quase nada, no máximo “bom dia” e “boa noite”. Apenas enviamos uma a outra, de forma espontânea, fotos bonitas.

Eu adoro ver o laranja do pôr do sol. Sempre acho que Deus está ali presente.

A primeira vez que avistei Odete foi numa casa de repouso, onde uma tia nossa estava internada. Odete apareceu reluzente: loira, cabelos esvoançantes, olhos azuis, bochechas rosadas e fartas.

Depois, encontrei-a numa festa de aniversário da minha mãe. Odete sempre foi muito simpática comigo. Em nosso último encontro, eu estava bastante triste. Ao me ver, ele disse: “Renatinha, linda como sempre”.

Percebo que Odete, assim com as suas fotos de céu, aparecem na hora certa. Neste tempo duro no qual estamos vivendo, o gesto de Odete me afaga, mesmo à distância e sem palavras.

Foto: Mario Purisic/ Unsplash

O que eu aprendi na quarentena

Aprendi na quarentena a ser mãe de pet.

Nos últimos anos, eu quis ter um gato peludo branco, cujo nome seria Sushi ou Shoyu, ou um cachorro peludinho, fofinho, super comportado, o Ulisses.

Não movi uma palha para tê-los.

Na última semana, um vira-lata caramelo e branco, orelhudo, de dentes tortos e patas longas e finas, apareceu na minha vida. Eu e meu namorado herdamos o Pascal, Pacal, Paquito, Pasca, Pac, Paquí, Quiquito, Quito, Quí, Mozão Piludo, Píqui, Piquí, Pí, Piriquito, Piriquí.

Primeiramente, aprendi que cachorros soltam pelos por toda a casa. Cachorros lambem a gente quando estão felizes. Cachorros querem comer tudo o tempo todo. Cachorros fazem suas necessidades onde der na telha. Cachorros têm hora para dormir e para acordar (a dele). Cachorros querem brincar em momentos inoportunos. Cachorros têm seus brinquedos preferidos, e geralmente são os mais xexelentos. Cachorros precisam ter as patas lavadas antes de entrar em casa – e eles odeiam isso. Cachorros às vezes aparecem cheirando a carniça. Cachorros precisam tomar banho – e eles odeiam isso. Cachorros deixam a casa cheirando a cachorro. Cachorros sabem fazer cara de dó quando querem alguma coisa. Cachorros demandam money. Cachorros levam o dono para passear, e não o contrário. Cachorros levantam-se rapidamente quando você vai para a cozinha. Cachorros querem atenção. Cachorros vomitam à noite.

O combinado era deixar o Pascal lá fora, mas – aos pouquinhos – ele foi para a sala, para o quarto ao lado, até que, numa noite, eu o vi na beirada da cama.

Aprendi que ele quer ficar juntinho e, quando não está, eu o quero por perto.

Aprendi que quem cuida se torna potente.

Os animais de estimação têm sido o paradigma da companhia perfeita, afinal, eles nos são fiéis e nunca discordam.

Spending My Tenderness on Animals (Foto: Unsplash)

Domingo de Páscoa

Eu nunca desejei tanto um churras familiar como no dia de hoje.

Quero entrar na casa com ares de Disney da Tia Eliana, estreando meu vestido parcelado da Farm.

Quero ver o Tio Fernando ao lado da churrasqueira, segurando o espeto numa mão e a cervejinha na outra.

Quero cumprimentar meus tios “gente boa”, Tiozão e a Vanda. Quero escutar as risadas do Tio Cláudio intercaladas com a sua expressão italiana preferida: “Dio Madona!”.

Quero ouviu meu pai contando uma história engraçada, muitas vezes por influência da caipirinha, ao mesmo tempo em que Fernanda e Nicolas estão mais interessados nas carnes nobres que saem dos espetos.

Quero rir com os meus queridos primos Du e Lari, e relembrar dos causos em Cambury.

Alerta de spoiler: quando finalmente o Du se preparava para usufruir da sua cadeira de sol, de frente para o mar, uma forte onda o atingia levando sua esposa, seus dois jornais e todo o resto. O jeito foi espalhar as páginas dos jornais no quarto e esperar secar para poder lê-los no dia seguinte. Por favor, imaginem a cena. É do Du que estamos falando.

Quero rever Murilo e Amandinha, presenças VIPs que sempre abrilhantam os eventos familiares!

Opa! Biel, Tami e Lulu estão chegando.

A pequena já anda pela casa e fala algumas palavras. Muita fofura para quem tem menos de um metro de altura.

Vejo minha mãe colocando a maionese na mesa de madeira enquanto Tia Elenice termina de mexer o “risóto” sabor moela no fogão. Tio Tutinho e Tia Selma se oferecem para ajudar; Matheus e Felipe, para servir.

Diego está feliz de pé (por que ele nunca senta? Por que ele nunca tá borocoxô?). Ao seu lado, Millene tenta decorar mentalmente nossa árvore genealógica e entender em qual galho entram Nene, Tio Gerardo, Fina e, claro, Ada.

Um pouco atrasados, chegam Alex, Flávia, Bella e Vicenzo, o qual some na mesma hora para jogar bola com o Dani. Bella vem carregada de coisas: toalha para piscina, jogo Detetive e livro de pintar.

Este último chama a atenção da Bárbara, que adora desfrutar de momentos artísticos nos almoços de domingo. Eli também está ali, sempre disposto a cochilar no sofá da sala.

Então, a chegada mais esperada de todas finalmente acontece. Paula, Yuri e Raul. Pela primeira vez, o nosso ursinho sai de casa para passear. Ele está dormindo em seu bebê-conforto, usando macacão novo com cheiro de amaciante Fofo. Todo mundo quer ver, pegar no colo e palpitar sobre as suas feições. Até a Clarinha quer conhecer o novo membro da família.

E a ? A vó Santina permanece sentadinha, observando o ambiente e pensando: “Que paiaçada!”.

Sim, vó, nossos churras são sempre uma paiaçada: começa com falação, parte para a comida e termina com mais falação e mais comida ainda. Mas é uma paiaçada deliciosa e tá fazendo falta!

Paiaçada! (Foto: Cristian Newman/ Unsplash)