O sonho da rotina corrida

Photo by Saffu on Unsplash

Cresci achando que era lindo ser ocupada.

Mesmo exausta, eu acreditava que havia uma beleza em viver na quinta marcha: era a forma mais fácil de me sentir importante – ou, pelo menos, o caminho mais curto para parecer importante aos outros. A rotina corrida era um jeito de alimentar meu ego, de me mostrar necessária, insubstituível.

Toda a minha vida, eu havia definido o meu valor pessoal apenas a partir da minha capacidade de ser produtiva. A forma como eu media o sucesso era pela quantidade de problemas que eu conseguia resolver.

“Entre o tédio e a ansiedade que afloraram em mim ao morar em uma sala de espera de hospital durante sete dias, aprendi uma lição: nosso verdadeiro valor e nossa maior força não estão na agilidade em que resolvemos pendências, mas em quanto estamos dispostos a redesenhar a nossa vida quando uma nova realidade se apresenta, exigindo que nos reinventemos – no meu caso, precisei descobrir uma versão de mim mesma mais leve, capaz de enxergar momentos de pausa sem medo nem culpa, com atenção plena e gratidão”, escreveu Rafaela Carvalho, colaboradora da revista Sorria (idealizada e produzida pela Editora Mol, a revista é comercializada na Droga Raia) .

Uma boa vida ativa deveria envolver sucesso comercial, um amplo círculo de amigos, viagens frequentes ao exterior, muitas idas a várias cidades, conhecimento das principais ideias em arte e tecnologia, noção de moda, ter assistido várias séries recentes e malhar intensamente, pelo menos, duas vezes por semana.

Sempre pareceu estranho defender outra coisa, o que se poderia chamar de vida tranquila, aquela vivida fora de um centro urbano caro, na qual se trabalha para satisfazer necessidades materiais e curiosidade intelectual. Porém, sem o frenesi ou o anseio emocional em que de vez em quanto se pode ver as notícias, raramente viajar para muito longe, quase nunca sair à noite, manter contato com poucos amigos, passar muito tempo na natureza, exercitar-se ao sair para caminhar, ter uma alimentação simples, raramente comprar algo caro, ignorar a maioria dos livros novos e sempre tentar ir dormir às 10 da noite.

Sobre lentidão

Lento não é sinônimo de menos efetivo ou menos produtivo. Ir mais devagar não significa não fazer as coisas, nem declarar guerra à modernidade ou à tecnologia. Viver devagar é viver em equilíbrio, ficar em silêncio, planejar, observar, refletir, cuidar de si e dos outros.

Sobre caminhar

Entendo o ato de caminhar como um deleite. Quando caminho (dia sim, dia não), me conecto com o meu interior, relaxo.

A caminhada é o momento em que faço pensatas nonsense. Desopilar é preciso.

Sobre meditação

Meditação mindfulness consiste em prestar atenção ao que acontece no momento. A meditação me faz lembrar de respirar. Quando me sinto ansiosa, para por um momento e respiro, criando um instante calmo para a mente e para o corpo.

Detox digital

Não me culpo por não dar conta de todas as notícias. Tento ficar mais off-line e aproveitar esse tempo ganho para interagir com a família, ler, estudar, pensar, meditar, cuidar da casa, entre outras atividades.

Desconecte-se um pouco da internet e conecte-se mais às pessoas e a si mesmo .

Cuide das relações afetivas

Na sua escala de prioridades precisam estar as pessoas mais importantes da sua vida. Quando buscamos valorizar as relações humana e a convivência com família e amigos, tendemos a pensar mais no bem-estar e contemplar, conversar, trocar afeto, cuidar, brincar, desfrutar, praticar a escuta atenta.

Isso nada mais é do que desacelerar.

Quem são as pessoas mais importantes na sua vida hoje? Não deixe que a desculpa de “não ter tempo” tire de você o convívio com quem mais ama.

Respeitar o nosso tempo é um ato de amorosa coragem.

A pressão que sentimos para sermos produtivos com frequência é o resultado da ansiedade. Estamos tentando nos distrair de nossas preocupações não cuidadas. A ociosidade pode ser útil. Ela nos dá espaço para explorar e acalmar nossa mente preocupada.

“O amor pela agitação contínua numa vida tumultuada não é atividade saudável, mas inquietação de uma mente assombrada”. Sêneca

Uma sala tranquila no meio da tarde, quando não temos nada urgente a fazer até o jantar, ninguém para ver e nenhuma mensagem para responder, poderia ser um dos lugares mais produtivos para se estar. Reconheceríamos o valor profundo de passar horas olhando pela janela.

Devanear é uma rebelião estratégica contra as demandas excessivas de pressões imediatas (mas essencialmente insignificantes) – a favor da elaboração de planos mais substanciais.

Quando estamos ocupados com rotinas e administração, estamos focados nos elementos que predominam em nossa mente: estamos executando planos em vez de refletir sobre seu valor, propósito essencial e focar no que realmente importa.

“Every time we make a thing, it’s a tiny triumph”.

Carl Honoré, líder do slow movement no mundo, é autor de “Devagar – Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade” e é também palestrante de um TED com mais de 2 milhões de visualizações.⠀

“No passado, cada momento do meu dia era uma corrida contra o relógio. Agora quase nunca me sinto apressado. Faço menos coisas, mas faço-as melhor e gosto mais delas. Eu faço pausas durante o dia de trabalho para relaxar, comer e fazer um pouco de meditação. Isso me fez muito mais produtivo e criativo”, disse.

“Agora tenho tempo para aqueles momentos que dão significado e textura à vida – lendo uma história de repouso para os meus filhos, desfrutando de um copo de vinho com a minha mulher à noite, conversando com um vizinho, parando e olhando para um belo edifício ou pôr do sol. Eu sinto que estou vivendo minha vida agora, em vez de correr por ela. Para conseguir isso eu tenho que ser disciplinado e ter limites. Então, quando estou trabalhando, estou trabalhando. Quando eu não estou, eu desligo completamente, incluindo celular e laptop”.

2 comentários em “O sonho da rotina corrida

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